Segunda-feira, Março 24

finalmente, mudança

Terminei de fazer as modificações básicas no novo endereço.

O novo sinestesia mora AQUI.

Esta página deve ficar no ar até Junho de 2003, quando eu a cancelarei definitivamente.

Quarta-feira, Março 19

em obras

Ao atencioso povo que vem aqui ler estas mal rabiscadas linhas, aviso que não estou postando por estar sem inspiração, e sim porque estou me mudando do blogger. Em breve vou estar todo biduzão, hospedado no movable type, e então poderei voltar às minhas bobagens.

Aguardem!

Sexta-feira, Março 14

mortes antecipadas

Autores de roteiros cinematográficos e escritores podem ser bastante cruéis. Eles podem nos avisar previamente que algum personagem morrerá. E eles o fazem sem maiores escrúpulos.

Spider murmura que aquela será a última vez em que verá sua mãe viva. Independentemente da veracidade da percepção de Spider, nós conviveremos com um espectro enquanto ela caminhar pela tela, atenção movida pela mórbida antecipação do golpe fatal, iminente. A mãe de Spider conversará, chorará, mas seus olhos já são os de uma mulher morta.

Milan Kundera mata os protagonistas de A Insustentável Leveza do Ser cedo. Bastam dois capítulos, e ei-los mortos, de forma estúpida e plenamente plausível. Seria diferente se ignorássemos tratarem-se de dois espectros? Estaríamos mais tensos quando ela vai para o campo de suicídio por fuzilamento? Temeríamos o desenlace dos desencontros amorosos dos personagens?

O próprio Milan Kundera nos dá a pista, neste mesmo romance. Não podemos trilhar aquele caminho paralelo, ele vai ficar como uma possibilidade morta. Assassinamos aquele caminho quando o deixamos de lado, ao darmos prioridade a este que seguimos.

A diferença é que Kundera nos coloca a andar por este caminho, obrigados. Tereza e Tomas sempre terão vida curta para nós, enredados no caminho de seu criador. A mãe de Spider será um espectro duvidoso, habitando as facetas de Miranda Richardson.

David Cronenberg: Spider

Ok. A história não tem nada de novo, e torna-se óbvia antes mesmo da metade do filme. O desenrolar do enredo é linear, e as excentricidades de Cronenberg não estão presentes. Esqueça o subtítulo em português, mais uma das constantes armadilhas a que são expostos os filmes estrangeiros nesta terra de adaptadores tão criativos. Levando isso em conta, aprecie o filme.

A fotografia é precisa e concisa; não esconde os detalhes, e nem os deixa muito óbvios. Os planos se desenvolvem em um estilo gótico cinzento. A cena em que Spider está diletante diante de uma casa cinzenta, com janelas de vidro refletindo um azul metálico é de uma beleza ímpar, por exemplo. E não devo deixar de ressaltar a música de Howard Shore, apropriada e convenientemente gótica.

A interpretação de Fiennes e Richardson está soberba. Fiennes criou um esquizofrênico elegante e perdido, enquanto a multiplicidade de Miranda Richardson nos mesmeriza, nos envolvendo no absurdo da percepção de Spider. Gabriel Byrne está muito bem, mas faz o que se espera de um ator do calibre dele. Sou suspeito para falar de Ralph Fiennes, cuja figura é uma referência de elegância fronteiriça que eu busco, sem muito sucesso.

A direção de Cronenberg é dosada e econômica. Os pontos altos são abafados, mas nunca esquecemos de que esse é um ponto de vista estrangeiro sobre um filme inglês, lento e contido. Sobram assim as sugestões colocadas de forma organizada, embasadas nas aparições do observador Spider, que se introjeta em seu passado, e elas fornecem um impacto grotesco nesta atmosfera carregada.

Duas intervenções hilárias, de campos verdes, quebram a claustrofobia de Londres. A única cena no manicômio remete aos quebra-cabeças, tão óbvios para Spider, em contraponto à obscuridade de sua própria memória e interpretação de fatos. Saindo do desagrado direto dos cortes, possíveis ou ocorridos, e do sangue, resta o diretor comentando sobre o perigo de um fragmento específico da janela, para então chegar ao ápice da forma britânica, encaixando o último fragmento faltante no quebra-cabeça da janela, laconicamente.

Existem pontos curiosos. A história poderia passar-se em outra época, pelos figurinos e pelas locações. Sabe-se de contemporaneidade apenas pela chegada do trem, onde desembarcam pessoas com roupas atuais. Spider, com suas quatro camisas, poderia muito bem viver na década de 40.

A cena do enterro da mãe de Spider lembra o clipe de Street Spirit. O pai de Spider cava, um Spider vigilante o observa junto com a prostituta loira, que fuma, alheia, embriagada, diante de um barraco, que remete ao trailer do clipe do Radiohead.

Spider pede para ser visto de novo, para que o espectador seja tão metódico quanto seu diretor; é uma vitória do estilo, diante de uma história menor.

Quarta-feira, Março 12

repetibilidade

Acusaria eu o fastio dos dias atuais, caso outros, no passado, não houvessem acusado o fastio de seus próprios dias. Assim, vou apenas demarcar o assunto com palavras, para deixá-lo aqui, deixar de carregá-lo comigo.

Trata-se da repetibilidade, ou vida em círculos. Esta sensação pavorosa me acomete sempre que me vejo diante de um telejornal, qualquer telejornal. Nem mesmo a pretensa diferenciação entre os telejornais de cada canal livra-me desta sensação. As notícias, pretensas novidades, são repetidas. Existem exemplos claros: as chuvas, seguidas de desabamentos, no Rio. As mortes nas estradas nos feriadões. Os gols da semana no campeonato de futebol. E existem padrões menos claros, que se repetem em escala global, e são mais abstratos: corrupção em primeiros escalões, fanfarronadas diplomáticas, a morte banalizada dos grandes acidentes, os costumes estranhos de tribos orientais.

Marcel Proust dizia que os jornais só deveriam ser publicados quando houvessem notícias importantes a serem dadas. Sorte dele ter morrido antes desta avalanche diária de pequenas tragédias e falsas vitórias.

Neil Gaiman escreve uma história sobre um homem que não deseja morrer. O homem expressa tal desejo ainda na Idade Média, e uma brincadeira da Morte permite que ele viva até os nossos dias, encontrando-se a cada século com Morpheus, e contando suas experiências. No subtexto da primeira e da penúltima página, saltam falas pouco conexas do burburinho no bar: fragmentos de conversas, opiniões sobre a situação, anedotas sobre um padre e coelhos. Todas iguais. Gaiman sintetiza assim sua visão da vida em círculos. Ele também boceja diante das novidades.

uma impressão

Gosto de coisas tristes. Não apenas de discos onde a Betty Gibbons canta ou filmes onde pessoas importantes morrem; eu sou atraído por pessoas tristes.

Ontem, eu não conseguia tirar os olhos de uma menina no ônibus. Ela era gordinha, e devia ter uns dezoito anos, ou qualquer coisa em uma faixa de dezesseis a vinte e dois, e isso não deve fazer muita diferença, pois ela estava com uma cara triste de doer. Eu duvidei por um instante; poderia ser apenas um momento. Continuei verificando enquanto conversava com meu colega de banco, e ela estava realmente triste. Até uma toupeira consegue inferir que uma menina está triste quando chora em um ônibus coletivo de fim de tarde, e a tal menina botava os bofes para fora em um choro contido, sem soluços.

As razões da tristeza não me interessam, geralmente, pois eu a vejo do ponto de vista estético. Até porque as pessoas ficam tristes por razões muito bobas, e coisas bobas podem estragar a atmosfera elegante que uma bela tristeza proporciona. A menina do exemplo, possivelmente, estava com notas baixas, ou viu seu pretendente, aquele que era namorado dela mas não sabia, agarrado com alguma sirigaita. Mas a tristeza dela, desconectada da causa imediata, era bela e grandiosa.

Explicações não encontrei para esse mórbido fascínio, e confesso que as procurei em mais de uma teoria. A mais plausível é a de que não acho a euforia uma sensação saudável. Este diagnóstico parte do princípio que faço muitas bobagens quando estou sereno, e quando estou eufórico, essas bobagens podem assumir contornos catastróficos. Pessoas tristes não costumam, na nossa cultura, ser eufóricas. Elas ficam quietinhas, fazendo ares distantes no olhar, construindo, dentro de suas cabeças, castelos que insistem em desabar.

Assunto inconclusivo.

Sexta-feira, Março 7

Marilene Felinto

Nunca fui fã de Marilene Felinto. Seu estilo é muito "espetaculoso", típico do homem indignado diagnosticado por Camus. Suas diatribes tinham o poder de gerar revoltas de poltrona plenamente revogáveis pelo primeiro programa de tevê. Mas isso é apenas uma questão de enfoque, mais do que de posicionamento, e isso não nos coloca em campos antagônicos.

Apesar disso, sempre tive Marilene em alta consideração por levantar sua voz contra seus patrões na Folha, muitas vezes criticando matérias e posições do próprio jornal.

Isso não poderia durar para sempre, ainda mais com o crescente aumento do conservadorismo no jornal. E Marilene Felinto teve de sair da Folha. Uma atitude válida, para nós que a consideramos tanto, é boicotar o jornal que a despejou. Eu, particularmente, não vejo muito ainda a ser lido na Folha, e o farei sem maiores dores. E você?

Marilene está escrevendo atualmente na Caros Amigos.

José Padilha: Ônibus 174

Junto com Cidade de Deus, este filme faz a dupla soco-no-estômago de 2002, e isso é um lugar-comum, do qual, miseravelmente, não consegui fugir. Ao final da projeção, eu estava tão deprimido quanto em minha primeira projeção de Cidade de Deus, em um cinema chique de Porto Alegre.

A diferença básica foi que eu passei por alguns bairros pobres para chegar em casa, e vi um tanto daquele Brasil nas ruas. Em Porto Alegre, as ruas estavam cheias da classe média alta, e era possível fingir que se falava de algum outro país. Florianópolis, ao contrário do que pensam muitos deslumbrados, guarda suas chagas, que a Tolerância Zero da prefeita mais legalzona do país não consegue jogar em camburões.

A opção de José Padilha é estilizar menos o seu filme, e isso é apropriado, por tratar-se de um documentário linear, que pinça fatos do passado em uma espécie de hyperlink de cenas inseridas no andamento. A fotografia lembra-nos constantemente de que estamos no inferno, mas este inferno só toma seus contornos esteticamente góticos nas cenas da carceragem, onde seres humanos em negativo aparentam ser criaturas podres de luz, e também nas escuríssimas cenas de outra carceragem, vazia, onde vaga algo do espectro de Torquemada.

Existe uma proposta de imparcialidade no filme, mas o foco é Sandro; as outras personagens surgem em pontos estratégicos, mas não são aprofundadas além de sua importância na tragédia em curso. Tanto que o filme poderia chamar-se "Sandro".

A duração extrapola um pouco a paciência do espectador, mas é plenamente válida ao reforçar aqueles acontecimentos. Duvido que alguém possa se esquecer facilmente da teatralidade absurda e obscena dentro do ônibus, ou da selvageria dos populares, que contagia os policiais em seu ímpeto de vingança pelo linchamento.

Que venham mais filmes, que o Brasil continue mostrando sua cara. Não poderemos fingir eternamente que não vemos os rostos devastados dos excluídos da nossa sociedade.