David Cronenberg: Spider
Ok. A história não tem nada de novo, e torna-se óbvia antes mesmo da metade do filme. O desenrolar do enredo é linear, e as excentricidades de Cronenberg não estão presentes. Esqueça o subtítulo em português, mais uma das constantes armadilhas a que são expostos os filmes estrangeiros nesta terra de adaptadores tão criativos. Levando isso em conta, aprecie o filme.
A fotografia é precisa e concisa; não esconde os detalhes, e nem os deixa muito óbvios. Os planos se desenvolvem em um estilo gótico cinzento. A cena em que Spider está diletante diante de uma casa cinzenta, com janelas de vidro refletindo um azul metálico é de uma beleza ímpar, por exemplo. E não devo deixar de ressaltar a música de Howard Shore, apropriada e convenientemente gótica.
A interpretação de Fiennes e Richardson está soberba. Fiennes criou um esquizofrênico elegante e perdido, enquanto a multiplicidade de Miranda Richardson nos mesmeriza, nos envolvendo no absurdo da percepção de Spider. Gabriel Byrne está muito bem, mas faz o que se espera de um ator do calibre dele. Sou suspeito para falar de Ralph Fiennes, cuja figura é uma referência de elegância fronteiriça que eu busco, sem muito sucesso.
A direção de Cronenberg é dosada e econômica. Os pontos altos são abafados, mas nunca esquecemos de que esse é um ponto de vista estrangeiro sobre um filme inglês, lento e contido. Sobram assim as sugestões colocadas de forma organizada, embasadas nas aparições do observador Spider, que se introjeta em seu passado, e elas fornecem um impacto grotesco nesta atmosfera carregada.
Duas intervenções hilárias, de campos verdes, quebram a claustrofobia de Londres. A única cena no manicômio remete aos quebra-cabeças, tão óbvios para Spider, em contraponto à obscuridade de sua própria memória e interpretação de fatos. Saindo do desagrado direto dos cortes, possíveis ou ocorridos, e do sangue, resta o diretor comentando sobre o perigo de um fragmento específico da janela, para então chegar ao ápice da forma britânica, encaixando o último fragmento faltante no quebra-cabeça da janela, laconicamente.
Existem pontos curiosos. A história poderia passar-se em outra época, pelos figurinos e pelas locações. Sabe-se de contemporaneidade apenas pela chegada do trem, onde desembarcam pessoas com roupas atuais. Spider, com suas quatro camisas, poderia muito bem viver na década de 40.
A cena do enterro da mãe de Spider lembra o clipe de Street Spirit. O pai de Spider cava, um Spider vigilante o observa junto com a prostituta loira, que fuma, alheia, embriagada, diante de um barraco, que remete ao trailer do clipe do Radiohead.
Spider pede para ser visto de novo, para que o espectador seja tão metódico quanto seu diretor; é uma vitória do estilo, diante de uma história menor.